5 de março de 2026 19:59

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Atendimentos por vício em apostas disparam 206% em três anos e plano de prevenção do governo segue inativo

O número de atendimentos por vício em apostas no Sistema Único de Saúde (SUS) disparou nos últimos anos. Entre 2018 e 2024, os registros passaram de 111 para 1.292 casos ambulatoriais de transtorno do jogo, segundo dados oficiais. O crescimento representa um salto de mais de 1.000% no período, ou 206% apenas nos últimos três anos. Apesar do avanço da ludopatia, o plano de prevenção prometido pelo governo federal não saiu do papel.

Um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) revelou graves falhas na atuação do Ministério da Saúde. O documento aponta falta de indicadores para monitoramento, campanhas educativas insuficientes, ausência de articulação interministerial e escassez de profissionais capacitados na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A auditoria destacou ainda que crianças e adolescentes permanecem desprotegidos diante da facilidade de acesso às plataformas de apostas.

Impacto socioeconômico e riscos para famílias

O setor de apostas esportivas e jogos online movimentou cerca de R$ 130 bilhões em 2024, segundo estimativas oficiais. Parte significativa dessa receita tem origem em famílias de baixa renda, incluindo beneficiários do Bolsa Família, que comprometeram parcelas do benefício em apostas, resultando em endividamento e desestruturação doméstica.

Governo adota medidas, mas sem execução plena

A Portaria nº 1.231/2024 estabeleceu regras para restringir o acesso às apostas, como a proibição do uso de crédito, exigência de pagamento pré-pago e proibição de propagandas que sugiram ganhos fáceis. O texto também prevê proteção a menores de idade. No entanto, o grupo de trabalho interministerial criado em dezembro do ano passado ainda não apresentou o plano de ação definitivo, mesmo após o prazo inicial de 60 dias ter expirado.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defende que as apostas sejam reguladas nos moldes da política antitabagista, com alertas visíveis sobre os riscos, canais de acolhimento nas plataformas e notificações diretas aos usuários. O ministro reconheceu, porém, que ainda não há dados consolidados sobre os custos do vício para a saúde pública.

Fiscalização e política em disputa

Além do monitoramento dos impactos das apostas na saúde, o TCU prepara auditoria sobre possíveis esquemas de lavagem de dinheiro nas plataformas, o que incluirá a análise de algoritmos e a atuação das operadoras. No campo político, a CPI das Bets, instaurada em novembro de 2024, investigou o setor e os efeitos sobre as famílias brasileiras, mas encerrou seus trabalhos em junho deste ano sem apresentar indiciamentos.

Um problema em expansão

Especialistas alertam que o vício em apostas já representa uma nova frente de crise de saúde mental no país. Com o crescimento exponencial dos casos e a ausência de políticas públicas efetivas, o risco é que a ludopatia se consolide como uma epidemia silenciosa, com impactos cada vez maiores sobre famílias, finanças públicas e a rede de saúde.

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