Em uma cartada de emergência, os Correios anunciaram que suspenderam R$ 2,75 bilhões em pagamentos, incluindo tributos e salários indiretos, para respirar financeiramente. A medida, revelada por documentos internos compartilhados com o portal g1, foi adotada pela estatal frente a uma crise de caixa que parece não ter fim: são 11 trimestres consecutivos de prejuízo, desde 2017 .
A desculpa oficial é “preservar a liquidez e reequilibrar o fluxo de caixa”, segundo nota interna da gestão financeira. Ou seja: pagar menos hoje para não quebrar amanhã .
💸 Quem ficou sem receber?
Entre os valores suspensos estão:
- INSS Patronal: R$ 741 milhões
- Fornecedores: R$ 652 milhões
- Planos de saúde (Postal Saúde): R$ 363 milhões
- Remessa Conforme: R$ 271 milhões
- Vale-alimentação/refeição: R$ 238 milhões
- PIS/Cofins: R$ 208 milhões
- Fundo de pensão Postalis: R$ 138 milhões
- Franqueadas: R$ 135 milhões
Mais da metade (cerca de 53%) está relacionada a tributos e repasses cujo atraso acarreta multas e juros, mas que teoricamente não travam a operação no curto prazo .
Já chegaram notificações
O estrago já virou alvo da Receita Federal: há uma dívida tributária de R$ 1,3 bilhão, registrada em documentação pedindo certidão negativa de débitos .
Adicionalmente, fornecedores acionaram a Justiça Federal cobrando R$ 104 milhões atrasados .
E agora? Onde conseguir dinheiro?
Para escapar da roubada, os Correios planejam captar até R$ 1,8 bilhão em recursos, via empréstimos ou aporte público, ainda incertos. Já tomaram R$ 550 milhões em empréstimos com os bancos Daycoval e ABC no fim de 2024, mas essas parcelas começaram a vencer em julho e só se encerram em dezembro deste ano .
Também há um financiamento de R$ 4,3 bilhões do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), mas com foco restrito em projetos de descarbonização e logística, nada pode ser usado para cobrir déficit operacional .
Por que chegou a esse ponto?
Segundo os próprios Correios, a crise é resultado de fatores estruturais e conjunturais entre 2024 e 2025:
- Mudanças nas regras de importação prejudicaram o comércio internacional e reduziram o volume de postagens.
- Concorrência mais acirrada após flexibilizações legais reduziu a competitividade, exigindo modernização que não ocorreu.
- Subinvestimento crônico em tecnologia, frota e logística tornou a empresa menos eficiente.
- Custos fixos altíssimos (pessoal, imóveis e frota representando 88% dos gastos) mesmo com demanda em queda .
No primeiro trimestre de 2025, o prejuízo chegou a R$ 1,7 bilhão, o pior desde 2017, alta de 115% em relação ao mesmo período de 2024. Dos 11 trimestres de prejuízo, 9 foram sob gestão de Fabiano Silva, presidente da estatal desde 2022 .
O que isso significa?
Mesmo com o aperto nos pagamentos, os Correios garantem que operações essenciais continuarão em 2025, amparadas por medidas emergenciais e ajustes internos.
Mas o cenário preocupa: fornecedores devem repensar contratos, empregados podem enfrentar instabilidade nos benefícios, e a Receita Federal pode dificultar novos contratos ou financiamentos. Franqueadas e parceiros, por sua vez, precisam acompanhar de perto os prazos e pagamentos para não serem pegos de surpresa .
Se você trabalha com ou depende dos Correios, como parceiro, fornecedor ou cliente, vale ficar de olho: a estatal tenta atravessar essa tempestade, mas os riscos e impactos ainda estão se desenhando.